02 Maio, 2007
Octavio Frias de Oliveira
Conheci Octavio Frias de Oliveira no elevador. No elevador da própria Folha de S. Paulo.
Eu estava em meus primeiros dias de trabalho no jornal. Embora não conhecesse sua fisionomia tive certeza de que aquele era o Seu Frias, como costumava ser chamado, quando sua entrada no elevador já lotado fez com que um ruidoso bate-papo coletivo se transformasse em cerimonioso “boa tarde” a ele dirigido, seguido de conversa de poucos decibéis entre o térreo e o 4º. andar do edifício da Barão de Limeira 425, onde desembarcamos todos, jornalistas, na redação da Folha de S. Paulo.
Muito já se falou e escreveu sobre a vida e a obra de Octavio Frias de Oliveira. Portanto, não serei eu, com uma convivência limitada ao papel de jornalista que participou com ele de algumas reuniões e de almoços de trabalho, a pessoa mais indicada para realizar grandes análises e comentários sobre esse empreendedor que evitava ser chamado de jornalista mas tinha a sagacidade reservada aos melhores da profissão.
Lembro, de qualquer modo, de algumas passagens que revelam um pouco do estilo do personagem Octavio Frias de Oliveira.
Um dos episódios, ocorrido alguns meses depois de minha chegada ao jornal, foi uma reunião tête-a-tête , na qual ele pedia minha opinião sobre temas específicos. Lembro que a atitude me pareceu a um só tempo interesse sincero de compartilhamento de percepções com um jornalista novo na casa bem como exercício de checagem intelectual. A conversa foi interrompida em determinado momento pelo telefonema de um eminente líder político brasileiro que é até hoje figura de grande destaque. Pelo que ouvi do lado de cá, a partir da menção do nome do interlocutor pelo próprio Seu Frias durante o telefonema, ficou claro que o outro lado da linha recorria à última instância do jornal visando manter no tamanho original (bem maior do que o recomendado) um texto para a página nobre dos artigos assinados do jornal, a respeitada página 3. O editor daquele espaço, pude perceber pela conversa, solicitara cortes ao texto original para que fosse respeitado o padrão obedecido por todos os outros colaboradores da página. Mas o inconformado autor do artigo do dia acreditava poder furar o bloqueio falando diretamente com o dono do jornal. Embora cortês com o interlocutor, Seu Frias foi implacável. Disse que a publicação do texto só seria possível se o autor acatasse a recomendação do editor da página 3 e reduzisse o escrito ao tamanho padrão. Disse algo como “não tem jeito”, desligou, e a nossa conversa voltou aos trilhos percorridos antes de sua interrupção.
Em outra passagem, anos depois, eu já estava fora do jornal e atuando como profissional de comunicação empresarial. Acompanhava um presidente de empresa multinacional para almoço na Folha com o “staff” do jornal. À saída, Seu Frias presenteou meu cliente e a mim com o livro “Primeira Página”. Explicou para o executivo, que era estrangeiro, tratar-se de publicação que continha algumas das capas mais relevantes da história da Folha de S. Paulo. E, virando-se para mim numa gentileza tão inesperada como especialmente generosa, acrescentou: “E algumas dessas capas você ajudou a produzir”.
Vale mencionar depoimento do jornalista Elio Gaspari, no livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal: “O jornal de maior circulação do país pertence a uma pessoa desinteressada do tamanho de seu ego (...) Caso raro de sujeito que acorda com vontade de perguntar e, mais raro ainda: pergunta sem dar ao interlocutor a impressão de que vai arrumar as respostas numa moldura já desenhada (...) Num traço raro no meio jornalístico, fica feliz com o êxito de quem quer que seja, sobretudo das pessoas que trabalham na Folha”.
Eu estava em meus primeiros dias de trabalho no jornal. Embora não conhecesse sua fisionomia tive certeza de que aquele era o Seu Frias, como costumava ser chamado, quando sua entrada no elevador já lotado fez com que um ruidoso bate-papo coletivo se transformasse em cerimonioso “boa tarde” a ele dirigido, seguido de conversa de poucos decibéis entre o térreo e o 4º. andar do edifício da Barão de Limeira 425, onde desembarcamos todos, jornalistas, na redação da Folha de S. Paulo.
Muito já se falou e escreveu sobre a vida e a obra de Octavio Frias de Oliveira. Portanto, não serei eu, com uma convivência limitada ao papel de jornalista que participou com ele de algumas reuniões e de almoços de trabalho, a pessoa mais indicada para realizar grandes análises e comentários sobre esse empreendedor que evitava ser chamado de jornalista mas tinha a sagacidade reservada aos melhores da profissão.
Lembro, de qualquer modo, de algumas passagens que revelam um pouco do estilo do personagem Octavio Frias de Oliveira.
Um dos episódios, ocorrido alguns meses depois de minha chegada ao jornal, foi uma reunião tête-a-tête , na qual ele pedia minha opinião sobre temas específicos. Lembro que a atitude me pareceu a um só tempo interesse sincero de compartilhamento de percepções com um jornalista novo na casa bem como exercício de checagem intelectual. A conversa foi interrompida em determinado momento pelo telefonema de um eminente líder político brasileiro que é até hoje figura de grande destaque. Pelo que ouvi do lado de cá, a partir da menção do nome do interlocutor pelo próprio Seu Frias durante o telefonema, ficou claro que o outro lado da linha recorria à última instância do jornal visando manter no tamanho original (bem maior do que o recomendado) um texto para a página nobre dos artigos assinados do jornal, a respeitada página 3. O editor daquele espaço, pude perceber pela conversa, solicitara cortes ao texto original para que fosse respeitado o padrão obedecido por todos os outros colaboradores da página. Mas o inconformado autor do artigo do dia acreditava poder furar o bloqueio falando diretamente com o dono do jornal. Embora cortês com o interlocutor, Seu Frias foi implacável. Disse que a publicação do texto só seria possível se o autor acatasse a recomendação do editor da página 3 e reduzisse o escrito ao tamanho padrão. Disse algo como “não tem jeito”, desligou, e a nossa conversa voltou aos trilhos percorridos antes de sua interrupção.
Em outra passagem, anos depois, eu já estava fora do jornal e atuando como profissional de comunicação empresarial. Acompanhava um presidente de empresa multinacional para almoço na Folha com o “staff” do jornal. À saída, Seu Frias presenteou meu cliente e a mim com o livro “Primeira Página”. Explicou para o executivo, que era estrangeiro, tratar-se de publicação que continha algumas das capas mais relevantes da história da Folha de S. Paulo. E, virando-se para mim numa gentileza tão inesperada como especialmente generosa, acrescentou: “E algumas dessas capas você ajudou a produzir”.
Vale mencionar depoimento do jornalista Elio Gaspari, no livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal: “O jornal de maior circulação do país pertence a uma pessoa desinteressada do tamanho de seu ego (...) Caso raro de sujeito que acorda com vontade de perguntar e, mais raro ainda: pergunta sem dar ao interlocutor a impressão de que vai arrumar as respostas numa moldura já desenhada (...) Num traço raro no meio jornalístico, fica feliz com o êxito de quem quer que seja, sobretudo das pessoas que trabalham na Folha”.
Ciro Dias Reis

